terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O meu amigo Rui.

Não teria sido um dia tão bom se não fosse o dia da despedida da Andreia. Não estaria lá a dona Laura, não estaria a tocar Zeca Afonso e, acima de tudo, não estaria lá o meu amigo Rui.
Ainda não éramos amigos naquela manhã, quando entrei na Unicepe, com a ousadia tímida de quem tem uma missão mas não sabe como a cumprir.

“Tem companhia para almoçar?” Foi assim que começamos uma longa viagem pelas viagens do Rui.

“Quem diria hoje de manhã que eu faria uma amiga”, diz-me com toda a naturalidade de quem não se importa com a banalização da palavra “amigo”, simples assim, de coração.

O meu amigo Rui (acho que por essa altura já éramos amigos) insistiu que eu experimentasse uma boa sopa portuguesa e, no prato principal, ensinou-me a comer um bom peixe – é preciso sentir as espinhas com a língua e tirá-las da boca, uma a uma, empurrando-as entredentes.

Falamos da Unicepe, claro, mas cada parte da história entrelaçava-se com as histórias dos seus personagens – os seus amigos. Juntos, viajamos para Beijing, onde o Rui esteve três vezes. Navegamos também para o Chile, onde ficou hospedado – com uma das maiores atrizes chilenas e os seus irmãos – na casa ao lado da de Pablo Neruda, na Isla Negra. Numa das suas viagens pelo país, conheceu também uma descendente do pai da revolução chilena.

O Rui falou-me de vários amigos, mas a história que mais me cativou foi a da Gabriela, de Maceió, que fez uma ponte literária entre Angola e o Brasil.

“Conheces?” Nunca me senti tão desprovida de cultura como nesse almoço, mas não faz mal, porque o Rui já era meu amigo e os amigos não nos julgam.

Entrar na Unicepe naquele fim de manhã foi o melhor acaso de sempre, o início de algo muito bom, muito grande. E que menos podia ser esta viagem que começou naquele lugar de tantas outras viagens, tantas aventuras, tantos amigos?


> Da minha coluna "Ligeiramente Alienígena", no blog da associação Código Simbólico.

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