domingo, 12 de abril de 2015

Analog love #4: Praktica.

Confesso que fiquei um pouco desiludida com a minha primeira tentativa com a câmara, não por causa da falha na pilha, que me fez perder dois terços das fotos que tinha tirado, mas mais pelo facto de a qualidade da imagem ser tão boa que quase parecia uma fotografia digital.
Parece coisa de hipster, eu sei, mas é assim a vida.
No resto, é claro, adoro-a.






terça-feira, 7 de abril de 2015

Iracema.

O lábio do guerreiro suspirou mais uma vez o doce nome, e soluçou, como se chamara outro lábio amante. Iracema sentiu que sua alma se escapava para embeber-se no ósculo ardente. 

A fronte reclinara, e a flor do sorriso expandia-se como o nenúfar ao beijo do sol.

Iracema, José de Alencar.

sexta-feira, 6 de março de 2015

O mundo que gira à nossa volta.

Hoje estava a subir a Rua da Trindade quando olhei para o chão, depois de atravessar o semáforo, e vi-o. O cartão SIM que estava na minha carteira - ou costumava estar, antes de o encontrar ali, no chão. Fui à carteira e, de facto ele não estava lá. Encontrei-o sem sequer saber que o tinha que procurar.

O universo funciona de maneira estranha. É como um quebra-cabeças que acaba sempre por encaixar. A vida está demasiado cheia de pequenas coincidências, e é tão fácil pensar que é um sinal de que algo nos espera, apesar de sabermos claramente que não (aliás, aprendam: validação subjetiva).

No entanto, a experiência de tantas pequenas coincidências num mundo tão grande é reconfortante: faz-nos saber que, por mais pequenos que sejamos comparados com a grandeza do universo, o mundo nunca deixa de ser uma ervilha, a ervilha que gira bem no meio do nosso umbigo.

Em outubro, estava a sair do autocarro no São João quando olhei para o chão e vi-a. A minha pen drive, desfeita pelos carros e pela água da chuva, ali, junto ao passeio. A pen drive que me tinha caído da carteira no dia anterior, com a tese que felizmente tinha acabado de entregar, e que julgava perdida para sempre na corrente.

Não interessava que o conteúdo estivesse intacto ou não; o importante era que o mundo tinha voltado a girar.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

O som da letra jota.

“O que eu mais quero é te dar um beijo / E o teu corpo acariciar.” O Grupo Revelação não está entre as minhas bandas favoritas, mas houve sempre qualquer coisa nesta música que a torna irresistível. “Você bem sabe que eu te desejo”. Mas o quê?

“Se você jurar / Eu posso até te acostumar”. Foi ao ouvir o Marcelo Camelo - esse, sim, perto do coração - que me apercebi do padrão.

“Ai ai ai, moreno / Desse jeito você me ganha”. Beijo. Desejo. Jeito. Jura. Não tem tanto que ver com a subjetividade de cada uma destas palavras, mas a carga que lhes confere o som tão íntimo da letra jota. Daqueles que se sussurram ao ouvido e provocam arrepios por todo o corpo. É uma sorte; haveria melhores palavras para sussurrar ao ouvido?

É engraçado não funcionar, por exemplo, com “Jura / Que não vais ter uma aventura”. Desculpa, Rui, mas é mesmo assim. Falta-lhe o sotaque adocicado, o calor que se sente até na forma como nos falam, íntimo, pessoal. Como o de Djavan, Gil, Jorge.

Beijo. Desejo. Jeito. Jura.

Abençoada língua brasileira.

Bónus: Playlist "O som da letra J"

> Da minha coluna "Ligeiramente Alienígena", no blog da associação Código Simbólico.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Sinto muito.

Esta semana voo para Londres, que já foi a minha cidade preferida. Se calhar ainda é. Era, em tempos aos quais gostava de regressar.

"O tempo vai dizer, lento, o que virá". Os últimos tempos foram de procurar o que há de bom, o que houve de mau, o que me espera que pode ser um ou outro, imprevisível, incontornável.

Não sou boa com o improviso, com o imprevisto. Mas o controlável chega apenas aos limites da nossa imaginação, e as minhas fronteiras tornaram-se claustrofóbicas, até mesmo enjoativas.

Não está a ser fácil. Não é num clique. As respostas são simples, como as de uma pesquisa no Google, mas é difícil perceber quais são as perguntas que devia estar a fazer.

"define:felicidade" ou "planos para viver -ansiedade -site:.pt"? Não sei. Não sei. Não sei.

Isto tudo é uma mentira. "Sinto muito." Não, não sentes nada.

O problema é precisamente esse.

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

O meu amigo Rui.

Não teria sido um dia tão bom se não fosse o dia da despedida da Andreia. Não estaria lá a dona Laura, não estaria a tocar Zeca Afonso e, acima de tudo, não estaria lá o meu amigo Rui.
Ainda não éramos amigos naquela manhã, quando entrei na Unicepe, com a ousadia tímida de quem tem uma missão mas não sabe como a cumprir.

“Tem companhia para almoçar?” Foi assim que começamos uma longa viagem pelas viagens do Rui.

“Quem diria hoje de manhã que eu faria uma amiga”, diz-me com toda a naturalidade de quem não se importa com a banalização da palavra “amigo”, simples assim, de coração.

O meu amigo Rui (acho que por essa altura já éramos amigos) insistiu que eu experimentasse uma boa sopa portuguesa e, no prato principal, ensinou-me a comer um bom peixe – é preciso sentir as espinhas com a língua e tirá-las da boca, uma a uma, empurrando-as entredentes.

Falamos da Unicepe, claro, mas cada parte da história entrelaçava-se com as histórias dos seus personagens – os seus amigos. Juntos, viajamos para Beijing, onde o Rui esteve três vezes. Navegamos também para o Chile, onde ficou hospedado – com uma das maiores atrizes chilenas e os seus irmãos – na casa ao lado da de Pablo Neruda, na Isla Negra. Numa das suas viagens pelo país, conheceu também uma descendente do pai da revolução chilena.

O Rui falou-me de vários amigos, mas a história que mais me cativou foi a da Gabriela, de Maceió, que fez uma ponte literária entre Angola e o Brasil.

“Conheces?” Nunca me senti tão desprovida de cultura como nesse almoço, mas não faz mal, porque o Rui já era meu amigo e os amigos não nos julgam.

Entrar na Unicepe naquele fim de manhã foi o melhor acaso de sempre, o início de algo muito bom, muito grande. E que menos podia ser esta viagem que começou naquele lugar de tantas outras viagens, tantas aventuras, tantos amigos?


> Da minha coluna "Ligeiramente Alienígena", no blog da associação Código Simbólico.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

100 palavras por dia.

É este o desafio, agora que o mestrado acabou e o vazio é esmagador. Talvez mais. Quando for preciso, menos. Nada, nunca.

Não sei bem quando começa, mas fica feita a promessa.

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Raízes.

Esta semana despedi-me do meu irmão mais novo, que foi estudar para Londres. Há dois anos e meio, foi a despedida do nosso irmão mais velho, que decidiu ir para lá trabalhar. Entretanto, em junho, completaram-se três anos desde que os meus pais voltaram para o Brasil.

Porque é que não vais com eles? Sei lá. E porque não ficar?

Criei raízes. Não sei se será mais pelo amor, pelos amigos ou pelo trabalho, mas são fortes e difíceis de arrancar. Sinto quase a dor do puxão quando envio alguma candidatura para fora daqui, e não esquecer que a dor é o alerta do corpo de que algo está mal. E realmente, mesmo que signifique continuar longe da família, algo parece estar mal quando penso numa vida fora daqui.

Quando me for – se um dia decidir, de facto, ir – não vai haver contagem dos anos que aqui vivi, porque não há números que traduzam “desde que me dou por gente”. Apesar de me sentir 100% brasileira, sou também 100% do Porto (no coração as leis da matemática são outras). Não é apenas a cidade ou o país onde construí a minha vida. Apesar das minhas mil queixas sobre o jeitinho tuga de ser, o facto é que tudo em mim, desde os palavrões com sotaque ou simplesmente ao pensar com uma mão no coração, não me deixa mentir: já sou demasiado portuguesa, sou mesmo daqui.

Perguntam-me novamente se tenho a certeza de que quero ficar. Caramba, quem tem certeza de tudo nesta vida?

> Da minha coluna "Ligeiramente Alienígena", no blog da associação Código Simbólico.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Algumas notas.

ABRIL 13, 2009
Algumas notas.
(...)
4. O artigo de análise anda a meio gás. Nem eu gosto da minha versão 1.0. Mas, como dizem, o que tem que ser tem muita força, e logo terá que ser mesmo.
Publicarei.

A história repete-se. Protelando desde sempre. #vaitese

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Economistas.

"Só que o comportamento humano, felizmente, é mais complexo e diverso do que presume o modelo do homo oeconomicus. Não só existem almoços grátis, como existem almoços que só são servidos de graça.

Aliás, é significativo que aqueles que menos disponibilidade têm para o entender sejam precisamente os economistas formatados na ideologia da prossecução estreita e tacanha do interesse próprio. Em numerosos estudos de economia experimental em que economistas ou estudantes de economia foram comparados enquanto sujeitos com grupos de controlo (não economistas), os primeiros mostraram-se consistentemente mais propensos a porem em prática o tipo de comportamento auto-interessado, não-cooperativo e egoísta previsto e afirmado pela teoria - revelando que esta, apesar de errada, é performativa, pois transforma a realidade no sentido postulado."

Sim, 70% da FEP faz-me espécie.

Aqui.